// O que é esse tal de Fine Art?

POR ALEX VILLEGAS

Uma breve introdução ao mundo das impressões digitais de alta qualidade.

Quem é que nunca ouviu falar nas expressões “fotógrafo fine art”, “impressão fine art”, “álbum fine art” e se perguntou de que exatamente se trata? Será possível, através da impressão fine art, fazer álbuns fine art, tornar-se um fotógrafo fine art e consequentemente um artista?

Ao pesquisar no Google a expressão “fotografia fine art”, surgem por volta de 18 milhões de resultados e no mínimo onze definições diferentes, além de um imenso debate sobre qual delas está correta. Para seguir em frente, é preciso fazer algumas presunções, assumir algumas definições mesmo que elas não sejam unanimidade, mas não se preocupem: elas não afetam o motivo central do texto, só contextualizam.

A origem da expressão

Em todo processo refinado de impressão, reina o cuidado e preocupação com a qualidade final - materiais e procedimentos são nobres.

Em todo processo refinado de impressão, reina o cuidado e preocupação com a qualidade final – materiais e procedimentos são nobres.

A arte e seus significados sempre seguiram caminhos nebulosos, com diversas divisões e categorias. Uma dessas divisões é a que separa artes aplicadas (applied arts) de belas artes (fine arts): simplificando muito, as primeiras seriam a produção de objetos esteticamente agradáveis e criativos, porém de uso prático, cotidiano e funcional, enquanto as belas artes seriam as atividades que tem como objetivo a produção de itens destinados ao estímulo intelectual. A divisão nem sempre é tão clara, porque arquitetura é considerada uma das belas artes, enquanto engenharia seria arte (ou habilidade) aplicada – e ambas estão envolvidas na construção de uma edificação, por exemplo.

Por outro lado, ofícios como fotografia ou impressão (que depois de Gutenberg passou a ter também propósitos mais utilitários do que a produção de gravuras) sempre tiveram um pé aqui e outro acolá, precisando recorrer a prefixos para definir sua utilização; termos como “impressão comercial” e “impressão fine art” mostram qual é a utilidade dessa impressão e qual o grau de cuidado e habilidade investidos em sua elaboração.

Partindo dessas premissas, podemos responder à pergunta do parágrafo inicial – aquela sobre alguém tornar-se artista ao usar da roupagem fineart – com um sonoro “não”. Na expressão “impressão fine art”, a habilidade e nobreza (o “fine” é herança dos tempos em que a arte não separava o belo do habilidoso) estão ligados ao processo da impressão, não ao que está sendo impresso. Apesar disso, o que exatamente será impresso tem um peso enorme na definição da utilidade do objeto final, o que faz com que essa divisão entre “fine art” e “comercial” seja de certa forma tola se voltarmos às definições originais de belas artes e artes aplicadas; mas a expressão pegou, e tem lá sua utilidade.

A figura do fine art printer

Fotografias são produzidas para as mais diversas finalidades: algumas são efêmeras por natureza e residem em mídias difíceis de controlar em termos de cor e qualidade de reprodução, como as fotos para revistas e catálogos de moda ou mesmo para sites na internet; outras são feitas para durar o máximo de tempo possível e cumprem elevados requisitos de cor, detalhamento e qualidade – são objetos de colecionismo, valiosos financeira ou emocionalmente.

Uma HP Z3100, impressora giclée de grande formato - foto cortesia HP

Uma HP Z3100, impressora giclée de grande formato – foto cortesia HP

Fineart printers são habilidosos impressores, especializados em uma ou mais tecnologias nobres de reprodução de imagens – empregam materiais de alta qualidade e complexos processos para assegurar impressões de alta durabilidade e fidelidade. Exemplos interessantes da era analógica são o famoso estúdio inglês 31 Studio, especializado em impressões de platina e paládio e responsável por prints maravilhosos da série Genesis do Sebastião Salgado, o autor e impressor Ctein, extremamente hábil nos processos de transferência de pigmento e Cibachrome (hoje Ilfochrome) usados na impressão de cromos, o legendário Atelier Fresson – criador de sua própria tecnologia de impressão em pigmentos de carbono – e a laboratorista brasileira Rosangela Andrade, especialista em ampliações PB em papel fotográfico e gelatina de prata.

 

Mas e na era digital? Há processos de impressão nobres para imprimir arquivos digitais diretamente, sem a necessidade da produção de um negativo?

Impressoras topo de linha

Sim, há. A impressão jato de tinta – aquela mesma, da impressora do seu escritório – evoluiu bastante, a ponto de se tornar um processo com alta qualidade e durabilidade; não é toda impressora jato de tinta que faz isso, apenas modelos projetados para a tarefa, e alimentados com tintas específicas e papéis nobres. Mas o resultado impressiona e produz impressões que podem sobreviver a mais de um século, se adequadamente manuseadas. Alguns chamam esse nobre sistema de jato de tinta de “impressão fine art” por si só, enquanto outros usa o termo “giclée” (que significa “spray” em francês; seria um equivalente ao termo “inkjet”) para distinguir o processo digital das impressões fine art analógicas.
E no que essas máquinas diferem da boa e velha multifuncional que tenho em cima da minha mesa?

Embora haja impressoras giclée (mesmo o termo não sendo universal, vou adotá-lo aqui na matéria para  que o texto tenha maior clareza, OK?) em formato A4 convencional, a maioria imprime em formatos grandes mesmo; as maiores chegam a mais de um metro de boca e imprimem em rolos de papel, o que possibilitaria imensas panorâmicas de 3×1 metros, por exemplo. Mesmo imprimindo em superfícies maiores, a capacidade de reproduzir detalhe permanece inalterada, o que torna o processo muito vantajoso na criação de grandes impressões.

A reprodução de cores é um capítulo à parte: enquanto nossas impressoras usam apenas 4 cores (ciano, magenta, amarelo e preto), impressoras giclée utilizam uma variedade muito maior – a HP Designjet Z3200  (outros fabricantes de impressoras atuantes nesse ramo são Epson e Canon), por exemplo, usa 12 tipos diferentes de tinta, incluindo dois tipos de preto e uma espécie de verniz. O resultado é que as impressões podem alcançar cores impossíveis de se obter em outros tipos de impressão digital. As cores também são altamente duráveis, pelo fato das tintas serem baseadas em pigmentos, não em corantes. Pigmentos minerais – ou seus equivalentes sintéticos – são colorantes mais estáveis quimicamente e resistentes à ação do tempo, embora sejam muito mais caros e exijam maior cuidado na utilização do que os corantes. Tintas usadas em giclée obedecem a rigorosos controles de consistência, tonalidade e durabilidade, o que faz com que um lote de tinta seja sempre muito próximo a outro.

E por último mas não menos importante, o papel: papéis usados nesse tipo de impressão precisam atender a diversas exigências de consistência (um lote deve se comportar da mesma maneira que outro), durabilidade (deve ser muito estável quimicamente e não degradar-se ou amarelar facilmente) e composição (para receber a tinta sempre do mesmo jeito, mantendo um padrão de cores e contraste). Então nada mais natural do que a produção desses papéis ser especialidade de quem já produzia bons papéis para artes antes da era digital. Fabricantes tradicionais como Canson, Hahnemuehle, Harman, Awagami e Somerset produzem a maior parte dos papéis fineart do mercado, e frequentemente são esses fornecedores que aferem a estrutura dos ateliers que produzem impressões em giclée, conferindo certificações àqueles que atendem às suas especificações de manuseio.

Aplicações

Bem emoldurada e adequadamente manuseada, uma impressão dessas tem grande durabilidade, sendo um produto bastante interessante para decoração, coleções e mesmo como documentos familiares de longa vida. Não sei quanto a vocês, mas toda a minha infância foi documentada em negativo colorido baratinho e papel fotográfico com corantes; acho que não preciso dizer que essas fotos estão imensamente deterioradas, tanto os negativos (as emulsões descolaram) como as impressões (que estão manchadas e intensamente amagentadas), por conta das condições muito menos do que ideais de armazenamento. Em compensação, a foto oficial do casamento dos meus pais ainda existe: é uma impressão em gelatina de prata a partir de um negativo preto e branco, combinação muito mais durável do que a anterior.

Pensando nisso, retratos e álbuns têm sido produzidos usando impressoras giclée, visando uma longa vida útil: álbuns podem ser montados à maneira tradicional, com cantoneiras e folhas intercaladas às fotos, ou impressos e encadernados à mão. Caixas com os prints protegidos por pequenas molduras – os conhecidos passe partouts – também são uma opção interessante para quem oferece esse tipo de produto.

Quanto custa?

Bom, não é um processo barato, especialmente no Brasil. O grau de exigência no manuseio, controle de cor e os altos valores de equipamentos e insumos acabam refletindo no custo do produto final, que é bem mais caro do que uma impressão cromogênica feita em minilab, ou um fotolivro impresso em offset. O valor cobrado também é proporcional à habilidade e reputação do impressor; embora impressão giclée não seja nem de longe um processo artesanal e complexo como suas contrapartidas analógicas, ainda assim exige um impressor habilidoso e perfeccionista – a impressão digital não é tão simples como parece, e preservar as características originais da imagem em uma impressão         de alta qualidade pode ser uma tarefa desafiadora.

Encadernações bastante sofisticadas podem ser feitas usando papel de algodão ou alfacelulose como base

Encadernações bastante sofisticadas podem ser feitas usando papel de algodão ou alfacelulose como base


Os valores normalmente dependem da área impressa, da quantidade de papel envolvida e da variedade utilizada – as diferenças de preço podem ser gritantes entre papéis de mesmo fabricante.

Outros detalhes

Mas nem só da impressão se faz o produto: mesmo para o fotógrafo, se faz necessário um certo período de adaptação para assimilar o processo. Uma exigência técnica maior, um certo traquejo com gerenciamento de cores e softwares de tratamento de imagem, uma boa pesquisa de materiais – as opções de papéis são imensas, e cada uma tem um branco específico, uma determinada textura e reproduz contraste e cor de maneira diferente – se fazem necessários antes de tornar impressões fine art uma opção em seu leque de produtos.

Opções de escalas, molduras, caixas, vidros, suportes, álbuns prontos ou encadernadoras – tudo isso deve fazer parte do leque de parceiros do fotógrafo que se dispõe a produzir impressões digitais de alta qualidade: procure por impressores certificados, moldurarias e encadernadoras que trabalhem com materiais neutros e que entendam de conservação de materiais fotográficos.

Concluindo

Lembre-se: fineart printing não irá transformar fotos em arte, mas tem muito a ver com colecionismo e qualidade. Um fotógrafo competente em pelo menos um processo de impressão tem um grau de controle muito grande sobre a própria produção, e é capaz de criar objetos extremamente atraentes para seus clientes. Domine as ferramentas, e beneficie-se!

*texto originalmente publicado na revista Photos & Imagens

retrato-dani_md-166x166ALEX VILLEGAS

Nascido e criado em São Paulo, Alex Villegas é fotógrafo e retocador, autor do livro “O Controle da Cor – Gerenciamento de Cores para Fotógrafos” e colaborador de diversos sites e revistas especializadas. Atualmente, dedica-se ao retrato com câmeras de grandes formatos, à iluminação, à produção de impressões de alta qualidade e ao ensino, ministrando cursos, workshops e consultorias desde 2005, por todo o Brasil.

Tem interesse em Fotografia Fine Art, confira o curso com Alex Villegas, se destinado a todo fotógrafo que quer aprender todo o processo de produção de imagens fine art, com impressões de alta qualidade no processo digital.

-Atualizado em 12/07/2017

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