Os princípios da Gestalt para a fotografia

Gestalt é uma teoria da psicologia que estuda como o cérebro humano percebe as formas e quais mecanismos estão envolvidos nessa percepção. Surgiu no final do século XIX na Alemanha. Esse nome, embora seja difícil uma tradução precisa, significa algo como forma ou configuração.

Segundo ela, vemos o todo e não partes da imagem, já que naturalmente humanos buscam a ordem e a relação entre os vários elementos visíveis. A teoria ainda defende que o nosso cérebro ao ver alguma forma, tenta relacionar a informação com algo que já vimos no passado (até mesmo do inconsciente coletivo) e que ficou de alguma maneira, guardado em nossa memória.

Por esse motivo, os princípios da Gestalt são bastante utilizados na área de design para ajudar a entender como a informação será passada através das formas criadas.

Em geral, a Teoria da Gestalt apresenta quatro princípios fundamentais para a percepção de objetos e formas.

Tendência à estruturação

O ser humano tem uma propensão natural para organizar ou estruturar os diferentes elementos com os quais se depara. Tanto é que sempre tendemos a agrupar os elementos que estão próximos uns dos outros ou que são semelhantes.

Assim não percebemos unidades visuais isoladas, mas suas relações.

Reconhecemos formas, traços e dependendo da maneira que eles estejam dispostos no quadro, já temos a leitura imediata do que aquilo representa.

Segregação Figura-Fundo

Trata-se da nossa capacidade perceptiva de separar, identificar, evidenciar ou destacar unidades formais em um todo compositivo ou em partes do todo.

Assim vemos os objetos em oposição ao fundo.

A nossa mente percebe mais rapidamente o elemento quando este está em contraste com o fundo.

Pregnância

É a qualidade que determina a facilidade com a qual as pessoas percebem as figuras.

Via de regra, as figuras que são mais facilmente percebidas são as simples, regulares, simétricas e equilibradas.

Ou seja, uma figura com alta pregnância é uma figura que apresenta equilíbrio,clareza e unificação visual.

Para exemplificar isso: Retângulo de ouro e Regra dos terços

Constância perceptiva

Conjuntos de regras perceptivas que dão sentido ao mundo que nos rodeia.

Por exemplo, quando observamos uma pessoa se afastar, a projeção dela na nossa retina diminui de tamanho. Isso não quer dizer que ela ficou menor, apenas que está mais distante. É o que dá a ilusão perceptiva.

O mundo tridimensional, na fotografia, para a ser bidimensional. Não temos a profundidade real na foto, mas ela permanece na imagem graças a outros elementos que trazem de volta o volume e a perspectiva.

E o que isso tem a ver com a fotografia?

Bem, caso você seja um (a) fotógrafo (a) preocupado (a) com a maneira como as pessoas olham para as suas imagens, os princípios dessa teoria, talvez, possa te ajudar e bastante.

Não seria ótimo se você conseguisse fazer as pessoas passarem mais tempo apreciando as suas fotos?

Como profissional, provavelmente você esteja procurando por maneiras de tornar os seus trabalhos mais dinâmicos, com formas, linhas e tensões que chamem a atenção, com aquele tipo de ânimo tão comum naquelas fotos icônicas.

Ao usar os princípios da Gestalt em nossas fotografias, estamos trabalhando e estruturando as pequenas partes que resultarão no todo. As técnicas usadas podem variar, mas o importante é como nós faremos para que a construção da imagem seja atraente, ou seja, devemos administrar o que a pessoa percebe, enxerga e processa ao olhar a foto. Informações visuais e como as percebemos é parte do nosso dia-a-dia, em ações inconscientes de nossa vida.

Assim, como fotógrafos, o nosso principal objetivo é apresentar essa informação visual de forma a controlar o que o nosso público realmente vê ao olhar a nossa imagem.

Olhando para a foto do carro antigo abaixo, temos praticamente três partes isoladas. O carro e a suas textura e cor que fazem alusão à sua idade e história, o adesivo “I like Ike” que dá uma sensação mais pessoal e mais íntima, e, por fim, o local abandonado, com grama alta e aspecto de mal cuidado. Cada parte faz sentido sozinha, mas quando colocadas juntas e dessa forma, o todo, a foto completa, traz uma emoção bem maior para o contexto.

Os princípios da Gestalt são os responsáveis por isso. Boas imagens são aquelas em que eles são trabalhados em harmonia.

Em geral, podemos destrinchá-los de modo a esclarecer alguns conceitos usados para boas fotografias: A relação imagem-fundo, fechamento, continuidade, o fato comum, similaridade e proximidade.

Relação Imagem-Fundo

Esse conceito já foi explicado anteriormente, mas vamos exemplificá-lo.

Quando você olha para uma imagem, você vê o objeto ou o cenário atrás dele?

 

Às vezes, é fácil distinguir o objeto, que é o assunto principal, do fundo. É importante manter o balanço entre eles, para que o objeto seja facilmente percebido. Tem que haver uma clara distinção.

Para esclarecer isso, basta olha a figura abaixo.

Ela é um péssimo exemplo dessa relação. O fundo apresenta muita informação e aí fica difícil perceber onde começa o cenário e termina o objeto (mãe e filho).

Então, a distinção entre os dois deve ser o suficiente para que a pessoa que olha a foto entender a cena facilmente.

E há várias formas de fazer isso. É possível controlar a profundidade de campo com as lentes, usar contraste, ou ainda separar a figura do fundo com cores e tamanhos.

Outra maneira interessante de fazer isso é mostrada na foto acima.  O fundo é retratado de forma imensa, gigante, e a figura, pequena e solitária. Apesar de o fundo tomar conta de quase toda a image, fica clara a sua separação com o assunto principal.

 

Fechamento

Um caminho para prender e envolver o seu público olhando para o seu trabalho é fazê-lo completar a imagem ou a ideia. Em outras palavras, preencher a lacuna. Isso é o fechamento.

O cérebro humano tem a magnífica capacidade de preencher e completar uma forma não-finalizada e encaixar as partes que faltam. Se o formato está suficientemente indicado, o ser humano é capaz de perceber a imagem como um todo.

Fazendo-no completar os pedaços de sua foto, ele se torna participante ativo no processo e fica muito mais interessado na sua ideia. É um sentimento de prazer e desafio que cria o conceito de fechamento e atrai muito mais quem olha o seu projeto.

Não entendeu?

A nossa mente também reage a padrões e até mesmo palavras que são familiares e é capaz de reconhecê-los mesmo que estes estejam incompletos ou errados de alguma forma. Por exemplo, tente ler a seguinte frase:

Eu tnho crtz que vcê é cpz de lr ssa frse (“Eu tenho certeza que você é capaz de ler essa frase”)

Embora muitas letras estejam faltando, a mente consegue perceber do que se trata. E isso é um sinal de que a Gestalt está em ação.

A única coisa com a qual você deve tomar cuidado é que a pessoa que vê a sua foto percebe a informação de uma maneira organizada e com um repertório do seu passado. Se ela tiver muito trabalho para compreender o que está vendo e não entender o propósito daquilo, pode ficar insatisfeita e desistir. Criar uma tensão visual é legal, mas fique alerta para não criar uma confusão visual.

 

Continuidade

Esse conceito baseia-se na ideia de que o ser humano tem a tendência de sempre seguir um percurso, um rio, um trilho de trem, um linha de alguma coisa. Esses elementos da composição são muito importantes. Eles oferecem a quem vê a imagem um caminho para “viajar” pela sua imagem.

O intuito aqui é estabelecer um percurso pelo qual o seu público possa analisar cada detalhe do enquadramento com uma certa lógica para percorrer a imagem. Quando você dá o curso a ser seguido, a pessoa vai seguí-lo, especialmente se tiver algo interessante no final. Especialmente, se, na sua imagem, estiver alguém ou alguma coisa apontando ou olhando para algo fora do quadro.

Na foto do Cowboy, há uma tensão visual criada pelo fato dele estar na ponta, olhando para algum lugar fora da foto. E perceba que trás dele tem um caminho formado pela cerca que leva até ele. Toda essa composição cria uma atmosfera de interesse sobre a imagem.

A imagem abaixo é uma bem conhecida para explica esse conceito da Gestalt.

Como a mão está apontando para lá, a pessoa que olha será direcionada a olhar para a bolinha menor. Aplicando esse processo na sua ideia de fotografia, você logo percebe o quão poderoso é o conceito que controlar aquilo que o seu público vê.

 

 

A lei do fato comum

Esse é um conceito bastante simples que se refere à direção visual criada em uma fotografia.

Por exemplo, se você tiver duas ou mais pessoas se movendo na mesma direção, você cria uma linha direcional, o que chamamos do fato comum. Juntas essas pessoas têm  o mesmo destino, elas se tornam o tema dominante na fotografia e são percebidas como um unidade.

Além disso, seria interessante – não obrigatório – colocar uma mensagem no destino final dessas pessoas. Se você colocar essas pessoas de uma forma que dê a enteder que elas estão saindo do enquadramento, você gera tensão. As pessoas vão se perguntar.

Falamos sobre os objetos estarem se movendo em uma mesma direção, mas isso também vale para a situação em que eles estão fazendo a mesma coisa. Sempre que tivermos um grupo realizando uma mesma atividade dentro do quadro, criamos uma unidade.

É interessante, aqui, destacar, que as pessoas sempre têm a tendência de seguir aquele fluxo que está sendo apresentado na figura. Seguir um percurso, uma faixa de areia, acompanhar uma mão que aponta. Se o público vê um grupo de mãos, por exemplo, que aponta para cima e depois enxerga uma mão apontando para baixo, cria-se uma tensão. Pois aquilo não é associado com o todo e acaba chamando a atenção.

Perceba na foto acima isso. Um grupo de crianças estão ao redor do policial. Apenas uma está na direção contrária, ignorando todo o grupo. Isso dá destaque ao menino. O nosso cérebro não consegue encaixá-lo em uma unidade e precisamos olhar a imagem por mais tempo para entendê-la de fato. Isso é a tensão visual criada pelo contraste do menino.

Similaridade

Esse é um outro conceito bastante fácil de se compreender.

Similaridade ocorre quando formas, cores, tamanhos ou objetos são parecidos o suficientes para serem percebidos como um grupo ou um padrão na cabeça de quem olha. Quando isso é alcançado em sua fotografia, você consegue transmitir uma sensação de ritmo e harmonia.

Nós somos propensos a identificar formas e cores correspondentes e combinadas e tentamos rapidamente identificar seus significados.

Por isso, mais uma vez, como fotógrafos, é exatamente o que queremos: a pessoa que olha o nosso trabalho tomando parte ativa em toda a experiência de visualizar a fotografia, tentando enxergar e compreender o intuito daquela imagem.

Proximidade

Esse é um conceito bem amplo e mais complicado de entender, que pode fazer maravilhas pela sua foto ou estragá-la completamente.

Uma árvore, um poste de luz, um prédio ou um orelhão são objetos que fazem parte do nosso cotidiano mas que podem ser um problema para capturar uma foto boa. Imagina uma foto com um desses elementos saindo pela cabeça do seu retratado, por exemplo? Dependendo de como isso fica registrado, pode resultar numa foto no mínimo bizarra. E muitas vezes, só percebemos esses problemas depois de tirar a foto.

Isso ocorre porque a realidade que vivemos é composta por três dimensões. Olhando para essa árvore ou esse orelhão, sabemos que eles estão distantes e não são parte do seu cenário imediato.

No entanto, quando você aperta o obturador, essa realidade, na foto, é alterada. Na fotografia, não temos a terceira dimensão, ou seja, perdemos a profundidade. Ou seja, tudo fica no mesmo plano e, possivelmente, em foco. Então, aquele prédio lá distante, aparece bem pequenininho saindo da cabeça do fotografado.

Por isso, é preciso estudar e avaliar muito bem toda as partes do seu enquadramento ao tirar a foto. Obviamente, essa perda de dimensão não é necessariamente ruim. Você pode tirar vantagem dela para algum trabalho mais criativo e rearranjar os elementos em sua composição criando uma unidade visual do seu jeito.

Tudo depende do seu intuito com aquela fotografia.

Estudos sugerem que as pessoas preferem olhar objetos similares agrupados juntos. Assim, colocando os objetos mais próximos juntos uns dos outros, você estará oferecendo à pessoa um tipo de explicação da sua mensagem.

Todos nós, inconscientemente, adoramos formas, cores e tamanhos similares. Agrupar isso no enquadramento cria senso de unidade que agradará ao olho do seu público, tornando aquela imagem prazerosa de se olhar.

 

-Por Vivian Kuppermann Marco Antonio

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