// Dicas de composição, parte I

Este é um post sobre composição. Mas também fala sobre a responsabilidade do que dizemos, principalmente quando somos professores. Em uma das minhas primeiras aulas aqui no IIF, falei a um grupo de alunos sobre o peso, a importância das linhas nas imagens. Tornando curta uma longa explicação, disse que as linhas horizontais dão a sensação de repouso e produzem um efeito estático e passivo no observador, que as linhas verticais são mais vigorosas e as diagonais dinamizam as fotos e introduzem a sensação de movimento.

Dias depois, fui procurada por um dos alunos que assistiu a esta aula para que eu visse algumas das fotos que ele produziu durante um evento. Acontece que ele levou tão a sério e ao pé da letra o que eu disse que decidiu que todas as pessoas deveriam estar nas diagonais do retângulo fotográfico. Ele forçou a criação destas linhas inclinando a câmera, como no exemplo abaixo.

Foto: Joslene Menezes, modelo Dudu Nakamura.

A primeira observação que essa fotografia gera é: em que posição devo Colocá-la? Quando na horizontal, este simpático garotinho parece estar caindo para a direita (dele). Se na vertical, escorrega para o outro lado. Primeira dica de composição: a fotografia, depois de feita, é inseparável de seu suporte, do aparato que possibilita sua existência – seja o papel no qual ela foi impressa, seja a tela do computador – a imagem nunca mais se verá livre do enquadramento na qual foi construída.

Feita esta primeira observação, sigo o raciocínio sobre a ideia do post, que é sobre as regras da composição, mas também fala sobre quando e como quebrá-las. No dicionário, composição significa “ modo de reunir as partes para formar um todo”, combinação, disposição, ou ainda “ a “arte de escrever música”. Aliás, o termo é instantaneamente associado à música, mais do que às outras linguagens. Talvez porque ao compor uma música o artista precise dominar mais do que uma linguagem: escreve no papel, através dos símbolos das notas musicais, aquilo que será um som, uma música – a menos palpável e mais envolvente de todas as artes se pensarmos que podemos fazer outras coisas enquanto escutamos música e, mesmo assim, sermos envolvidos por ela.

Trocando em miúdos, compor significa colocar as coisas em ordem, dispor as notas em uma música, as palavras em uma sentença, as frases em um texto ou ainda os elementos visuais dentro da fotografia. Dentro deste contexto, a composição visual se diferencia das demais por ser o único momento no qual compomos na mesma linguagem do artefato: a cena é vista, o acontecimento se desenrola durante o ato fotográfico. É, portanto mais intuitiva, menos pragmática e cartesiana, ainda que exista uma ordem.

Em fotografia a composição é, então, uma seleção daquilo que será apresentado ao leitor da imagem, processo que acontece em duas etapas. A primeira refere-se ao assunto, tema fotografado e a segunda às técnicas de como fotografar o que se escolheu fotografar. Podemos dizer que a primeira etapa determina duas maneiras distintas de composição visual. Explico: se fotografamos determinados assuntos como moda, produto, gente (para books, retratos etc.), temos certo domínio sobre a cena, podemos montar a luz que melhor convém ao caso, dirigir as pessoas e modelos ou ainda colocar o produto nas mais variadas posições que desejarmos, como acontece nessa fotografia de David LaChapelle. Neste caso, a composição pode até ser pensada, preparada e organizada anteriormente, a modelo pode repetir a posição ou fazer outras até que se chegue ao resultado desejado, o espelho pode ser movimentado, o fotógrafo pode se posicionar de maneiras diferentes, testar diferentes ângulos e a imagem pode ser refeita quantas vezes forem necessárias.

LaChapelle, Jeanloup Sieff, Helmut Newton

Se o assunto que fotografamos é um acontecimento jornalístico ou um evento, por exemplo, muda completamente a maneira de entender e encarar a composição: não se tem muito tempo para elaborar essa organização e é preciso saber trabalhar com os elementos da forma como eles se apresentam, como se vê nas imagens abaixo, que mostram situações do cotidiano, recortadas e reorganizadas segundo a intenção do fotógrafo.

Nair Benedicto, Robert Doisneau, Brassai

As imagens do primeiro grupo são ideias construídas do início ao fim. São concepções que nasceram antes mesmo de se pegar a máquina. É comum, inclusive, que fotógrafos desenhem, croquizem suas idéias antes de transformá-las em fotografia; outras vezes elas nascem a partir de um briefing – conjunto de informações que recebemos do cliente/agência.

Os fotógrafos do segundo grupo se enquadram em outro tipo de produção de imagens mais atrelado ao caráter documental da fotografia. Nestes casos, a construção/ordenação acontece de maneira diferente, porque a intenção é capturar, mostrar a cena cotidiana como ela se desenrolou.

A segunda dica do post é, então, saber em qual desses grupos a sua fotografia se encaixa. Não proponho aqui um posicionamento rígido, uma separação entre grupos distintos de fotógrafos, mas uma diferenciação entre tipos diferentes de fotografia: a publicidade exige uma concepção anterior, envolve a direção de modelos, o briefing, etc., à fotografia de eventos ou de jornalismo é inerente a espontaneidade, existe um fluxo de acontecimentos que precisa ser respeitado. E em cada uma delas a composição acontece de maneira diferente e, como ela acontece será tema do próximo post dessa série.

*Lila Souza é arquiteta, urbanista, especialista em fotografia pela Universidade Estadual de Londrina, mestranda em Multimeios pelo departamento de cinema no Instituto de Artes da UNICAMP e dá aulas de Técnicas de composição no Instituto Internacional de Fotografia.

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