Composição na Fotografia de Gente

A imagem fotográfica não representa, de modo algum, a realidade. Escolhendo o enquadramento, o ponto de vista, a iluminação e o momento do disparo o fotógrafo efetua uma operação sobre a realidade, apresentando sua interpretação própria.

O ser humano percebe a realidade externa através dos sentidos. Estes fornecem informações sobre luz, cor, movimento, sensação espacial tridimensional, sons, cheiros e temperatura do ambiente.  As informações são recebidas e interpretadas pelo nosso cérebro, acrescentadas às informações e emoções que compõem a bagagem pessoal de cada um, e tudo isso é, enfim, elaborado e sintetizado na imagem mental do ambiente.

Este maravilhoso trabalho instantâneo é o primeiro e principal exemplo de representação da realidade que nós temos.

Depois disso vêm os grafites, as pinturas rupestres, as tradições verbais, a escritura, a poesia, a fotografia, o cinema e as imagem virtuais produzidas através da tecnologia informática.

Os autores almejam induzir emoções tão intensas quanto aquelas criadas pela percepção multi-sensorial humana. Isto é possível utilizando as potencialidades da própria forma de comunicação e interpretando a situação que se propõe a recriar.

Na fotografia a composição, a iluminação e a informação são as ferramentas disponíveis.

Neste artigo o enfoque maior será para composição de imagens que contenham o sujeito humano como elemento principal.

COMPOSIÇÃO

Compor é organizar no espaço limitado da imagem bidimensional, uma porção de realidade.

Já na primeira olhada de uma cena através do visor da nossa câmera, percebemos que devemos efetuar uma serie de escolhas para conseguir a representação fotográfica dessa realidade. A imagem será mais alta que larga ou o contrário? Poderá também ser quadrada, e porque não, redonda. O que vai estar incluído na imagem? O que vai ficar fora? A linha do “horizonte” estará reta ou inclinada? No centro, na parte alta ou baixa da imagem?

Esta e outras opções se apresentam ao nosso arbítrio.

A fotografia faz sempre um esforço para induzir a terceira dimensão e a sensação do movimento através do uso dos elementos internos da composição.

Combinando enquadramento, ponto de vista, corte fotográfico, linhas nas imagens, relação entre sujeito e fundo, relação entre primeiro plano, segundo plano e fundo, perspectivas e linhas de fuga e ponto de interesse, o fotógrafo compõe a imagem fotográfica.

ENQUADRAMENTO

O enquadramento diz respeito ao espaço representado.

A percepção humana aproveita a mobilidade da cabeça e dos olhos para inserir cada elemento no contexto maior do ambiente existente ao redor. A imagem fotográfica representa uma porção do espaço definida e imutável.

O limite da imagem fotográfica cria uma moldura que diferencia o interno (visível e existente) e o externo da imagem.  O externo da foto pode acrescentar informações ou não. A sensação de “invisível, mas existente” pode ser criada através da escolha de uma parte do ambiente que aparece, assim como a ausência pode ser conseguida simplesmente excluindo elementos do campo do enquadramento. Além disso, a posição do elemento principal em relação ao espaço inteiro da imagem pode induzir a sensações de movimento ou não.

Podemos sintetizar isso da seguinte forma: posição central, simétrica, estabilidade. Posição lateral, assimétrica, instabilidade. Estas sensações são acrescentadas com a combinação do corte, do ponto de vista e da direção das linhas da imagem.

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Enquadramento vertical. A foto superior mostra uma locação no interior de um bar, suficientemente descrita pelo enquadramento. O fato de a mesa não aparecer inteira não deixa duvidas sobre a existência do restante. A posição assimétrica do sujeito e a inclinação da câmera criam uma sensação de movimento, acrescentada pela posição do modelo.

Enquadramento horizontal de um detalhe. Na imagem seguinte, a profundidade é induzida através dos vários planos que compõem a foto. O desenho no chão, as sombras e as cores criam um efeito dinâmico que combina com o borrado do sapato à direita no primeiro plano.

PONTO DE VISTA

O ponto de vista indica onde o expectador está relativamente à cena fotografada.

O ponto de vista é a “sensação de posição” que o observador tem em relação ao sujeito da imagem fotográfica.  Pode ser de cima para baixo, mesma altura, ou de baixo para cima.

A posição de cima para baixo tende a achatar os objetos, colocar a linha do horizonte na parte superior da foto transmite, geralmente, uma sensação de enclausuramento e opressão.  Uma posição de baixo para cima, por outro lado, cria uma sensação de abertura, liberdade, espaço e felicidade. A posição ao nível do horizonte cria estabilidade, homogeneidade e transmite tranqüilidade, mas também sugere falta de movimento.

O ponto de vista é uma ferramenta extremamente importante em fotografia de moda para considerações sobre os costumes ou o relacionamento humano. O enquadramento de baixo para cima faz crescer o sujeito da foto, dando uma sensação psicológica de poder, força e superioridade. A posição contrária diminui a influência do sujeito que vira subordinado ao observador da foto e, novamente, a posição à altura do horizonte (altura do olhar) é caracterizada por uma menor pressão psicológica, indicando paridade e não induzindo emoções especiais.

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CORTE FOTOGRÁFICO

O corte fotográfico evidencia a distância entre o observador e o sujeito fotografado.

Na representação da figura humana existem pontos codificados de exclusão de parte do corpo. Normalmente estes cortes seguem a regra de não cortar o corpo na metade das articulações.

A principal sensação que o corte fotográfico transmite nas imagens que contenham uma figura humana é a distância entre sujeito e observador. Esta distância mexe inconscientemente com as regras comportamentais de relacionamento humano. Quanto mais o corte é ‘fechado’, se ocupando de uma parte específica do corpo, mais o observador tem a sensação de estar perto do sujeito, uma sensação de intimidade. Junto com a postura do sujeito fotografado, a distância pode criar sensações positivas ou negativas (nunca de indiferença). Trataremos isso amplamente no artigo sobre direção de modelos.

Recentemente cortes mais extremos e revolucionários estão sendo utilizados para criar sensações de impacto. Os superdetalhes são um exemplo, também estão virando elementos de linguagem, os cortes laterais, nos quais partes do corpo do sujeito ficam fora da foto. Essa assimetria produz sensação de movimento e instabilidade. Esta última técnica é, às vezes, combinada com enquadramento horizontal, onde um grande espaço é reservado a elementos secundários e/ou externos ao assunto principal da foto, este tipo de enquadramento é chamado de “enquadramento cinematográfico” porque se inspira na linguagem de fotografia usada em cinema.

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LINHAS NAS IMAGENS

As linhas são a principal ferramenta para criar profundidade e movimento na imagem fotográfica.

É extremamente fácil incluir ou criar linhas nas imagens fotográficas. Em geral as linhas curvas são mais dinâmicas do que as retas. Além disso, pelo costume de leitura, nossos olhos exploram as imagens segundo uma ordem precisa. As linhas, acompanhando ou não este movimento, criam sensação de estabilidade ou movimento interno a foto. Linhas com movimento interno muito forte são as diagonais.

Movimento de leitura das imagens:

Da esquerda para a direita e em seguida de alto para baixo: Pessoas de cultura ocidental.

De alto para baixo e em seguida da esquerda para direita: Pessoas de cultura oriental.

De direita para esquerda e depois de alto para baixo: Pessoas de cultura árabe.

Consideremos apenas o primeiro caso:

Linha horizontal: induz um efeito estático e passivo no observador.

A própria linha do horizonte, pela sua estrutura de linha horizontal, tem que ser tratada com muito cuidado. Em particular nunca deve estar no meio da fotografia. Uma boa solução é inclinar um pouco a linha do horizonte, criando uma linha com uma pequena tendência diagonal.

Linha diagonal: a linha diagonal irradia movimento e desejo de se mexer.

Quando se desenvolve da esquerda em baixo para a direita em alto se chama de diagonal ascendente e cria uma sensação positiva, o desenvolvimento contrário induz uma sensação negativa.

Linha vertical: induz vigor, firmeza e vitalidade.

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As linhas curvas da pista e arquibancada dão uma sensação de movimento e energia a essa foto. Além disso, as linhas retas inclinadas do modelo e do poste reforçam essa sensação de energia e força. Tudo isso combina com o tema da corrida e a atitude do modelo

RELAÇÃO ENTRE SUJEITO E FUNDO

Em fotografia com sujeito humano, a pessoa é sempre considerada sujeito da imagem.

A distinção entre o sujeito principal e o fundo da foto é uma das preocupações menores no caso da fotografia de gente, já que o ser humano é sempre percebido como elemento principal de uma imagem.

É importante notar que para outros tipos de sujeito. esta facilidade não existe e a presença de muitos elementos com tamanho e peso parecidos podem criar confusão na discriminação entre sujeito e fundo.

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Apesar da quantidade de elementos e planos desta imagem, reconhecemos a pessoa como sujeito da foto.

PRIMEIRO PLANO, SEGUNDO PLANO E FUNDO

Possibilidade criativa na fotografia de pessoas.

No desenvolvimento de um espaço tridimensional em uma representação bidimensional, é importante evidenciar a existência de planos diferenciados. Isso aumenta a sensação de movimento e profundidade e permite usar com maior criatividade os recursos da fotografia. Aproveitando de modo especial a característica da figura humana de ser sempre considerada o sujeito principal da foto, é possível desenvolver planos secundários que aumentem a sensação de profundidade.

A escolha da objetiva vai influenciar muito na representação do espaço em planos:

Objetiva grande-angular: oferece muitos planos de ação. É caracterizada por uma profundidade de campo elevada. Cria uma possível deformação do sujeito no primeiro plano. O sujeito no fundo fica muito pequeno em relação ao primeiro plano.

Objetiva normal: tem o melhor desenvolvimento de perspectiva, distribuindo um espaço proporcional entre primeiro plano, segundo plano e fundo.

Lente teleobjetiva: Desenvolve um só plano, provocado desfoque nos outros planos e provocando um efeito drástico de “achatamento” do fundo. O grande desfoque do fundo pode ser utilizado para chamar a atenção do expectador ao primeiro plano.

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PERSPECTIVA E LINHAS DE FUGA

A perspectiva em fotografia é controlada através da escolha da lente, porque esta influi no ponto de vista.

A perspectiva é a técnica de reprodução bidimensional de um espaço tridimensional.

Este fenômeno plástico pode ter uma aparência real (parecida com a sensação de espaço que estamos acostumados a ver) ou irreal, no caso de perspectivas diferentes das que estamos habituados, ou ainda de falta completa de perspectiva.

Nas artes plásticas os artistas controlam a perspectiva através do estudo das linhas de fuga originadas de pontos que escolhem livremente em função da idéia que querem transmitir. Em fotografia a reprodução da perspectiva é controlada através do ponto de vista. Nós podemos intervir sobre o ponto de vista através da escolha da objetiva usada.

Uma objetiva grande-angular terá um ponto de vista muito próximo ao sujeito. Essa posição criará uma deformação (diferença entre a representação fotográfica e a visão normal do ser humano) mais ou menos acentuada do sujeito, dependendo da objetiva.

A objetiva normal, reproduzindo basicamente as condições de visão humana, produz a imagem com proporções corretas.

A teleobjetiva, aumentando a distância do ponto de vista, evita a deformação do sujeito, mas muda a percepção dos vários planos, comprimindo-os em um só.

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É difícil encontrar exemplos de perspectivas diferentes no meu trabalho, porque priorizo a realidade da imagem e evito a deformação humana. Em relação às linhas, nesta imagem há o jogo geométrico das telhas que criam duas linhas diagonais, planos de fuga bem evidentes. A posição do modelo acompanha a direção de uma linha de fuga incrementando o efeito e criando uma diagonal contrária.

REGRA DOS TERÇOS.

Existe uma área especifica da foto localizada no alto e à direita na imagem fotográfica que é o ponto onde o olho aponta naturalmente no primeiro contato com uma imagem. O sujeito principal da foto deveria estar sempre nesta área.

Esta regra evoluiu em uma variável segundo a qual esta área deve conter um elemento de contraponto ao sujeito principal ou um elemento que conduza diretamente ao elemento principal.

Esta regra, muito valiosa na maioria das aplicações da fotografia, é muito pouco aplicada na fotografia de pessoas, em função da predominância que a figura humana detém em relação aos outros elementos da cena.

A COMPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA E A LINGUAGEM VISUAL

A composição é uma ferramenta fundamental na formação de uma mensagem visual, mas como em toda linguagem, cada elemento deve combinar e interagir com os outros componentes da linguagem.

É muito difícil falar de composição separando-a da direção de iluminação ou da direção do olhar do modelo.

Esta separação, necessária para uma exposição didática, não existe na atividade fotográfica onde todos os componentes de linguagem interagem concomitantemente e com o mesmo sentido, a fim de produzir uma comunicação unívoca.

-Atualizado em 01/06/2017

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