// “A fotografia não é só um mero registro”. A Fotografia e a Arte Contemporânea com Ronaldo Entler.

 “A fotografia não é só um mero registro”. A Fotografia e a Arte Contemporânea com Ronaldo Entler.

Teórico e crítico de fotografia Ronaldo Entler, que estará presente na 2ª Semana de Fotografia e Arte, evento dedicado à fotografia artística e autoral, levanta discussão sobre o espaço da fotografia na arte contemporânea. Sabe-se que o longo do Século XX, houve um grande esforço para que a fotografia fosse reconhecida como Arte, o que obteve um certo sucesso na medida em que muitos fotógrafos foram entrando para coleções importantes de museus e foram obtendo o devido reconhecimento. Mas, o que aconteceu entre os anos 60 e 70, pelo mundo afora,  modificou a forma de ver a fotografia.

Ronaldo explica que, a partir dessa época, se tornou cada vez mais comum os artistas trabalharem com técnicas muito híbridas e procedimentos que sequer conseguimos nomear desenvolverem esse processo de uma maneira muito fluida, o que fez com que a fotografia tivesse uma maior participação nos espaços dedicados à produção artística.

Tornou-se mais comum, então, encontrar a intervenção de artistas nos espaços urbanos ou  performances, que são atividades efêmeras, porque elas duram o tempo da própria intervenção, da própria ação e, muitas vezes, esses acontecimento são retratados em fotografias, em cinema, ou em vídeo, e essas fotografias começam a ir parar nas coleções de artes, ou em exposições nas galerias, a tal ponto que, às vezes, os artistas começam a produzir essas ações, – essas intervenções nos espaços, essas performances – já considerando que isso vai virar uma imagem fotográfica, que será exposta depois, então,  a fotografia nesses casos ela não é somente mero registro ela é parte da constituição dessa obra.

A partir dos anos 60, no mundo todo e, no Brasil, mais claramente a partir dos anos 70 e 80, a fotografia entrou no processo de trabalho dos artistas, independente de eles serem fotógrafos ou não, o que ampliou esse espaço da fotografia na arte contemporânea. A questão que se coloca na palestra de Ronaldo será que fotografia é essa?

Ronaldo explica que ela certamente não é uma fotografia semelhante àquela feita pelos grandes mestres da fotografia no século XX, às vezes essa fotografia é um pouco mais híbrida, ou seja, ela não é uma obra fotográfica, ela é uma imagem que participa de um processo mais complexo , ela própria sofre muita intervenções de outras linguagens, não sendo incomum encontrar instalações em que parte delas são fotografias, além de intervenções pictóricas em cima de fotografias, e portanto, ela já não é mais uma fotografia “pura”, essa questão do hibridismo das linguagens tem sido  muito marcante nas últimas décadas.

Outra questão é que essa fotografia é tem um caráter mais conceitual. Isso quer dizer que ela  não tem a pretensão de ser uma grande imagem por si mesma; ela parte de uma narrativa, ela parte de um projeto, de um processo e, essa imagem, só faz sentido considerando todo esse contexto. Ela não é uma imagem elaborada para a contemplação, ela nem precisa ser uma necessariamente imagem bonita, mas ela ajuda a produzir um relato, a produzir uma reflexão, e quando se entra nesse contexto de reflexão, desse relato, essa imagem faz sentido. Isso é o que se chama arte conceitual. O objeto em si mesmo, e isso não vale só para a fotografia, o objeto que está sendo mostrado, ele é bastante banal, em termos formais, ele não tem grande apelo, mas esse objeto permite uma reflexão que é bastante interessante.

Portanto, a obra é muito mais o conceito que se constrói dentro desse debate, do que o objeto em si, o objeto ele é só um mobilizador desse debate. A fotografia participa muito desses processos que a gente chama arte conceitual e então existe uma ampliação dos procedimentos artísticos, que permitam a presença da fotografia, nessa relação com arte contemporânea e que não tem necessariamente haver com a formação que os grandes mestres da fotografia tiveram, com a afirmação de seus trabalhos, então será um contexto diferente.

Quer entender mais? Então confira a entrevista exclusiva feita pelo Instituto Internacional com Ronaldo Entler em que ele explica sua trajetória com a fotografia, como encontrou ela na arte contemporânea e como será sua palestra na 2ª Semana. Confira:

IIF: Qual é sua relação com a fotografia e com a arte?

Ronaldo Entler: Eu me formei em jornalismo e trabalhei dez anos como fotojornalista em alguns veículos de comunicação. Naquela época não havia espaços culturais dedicados à fotografia, e os poucos cursos que tinham eram muito caros. Para se ter uma ideia, hoje em dia é muito fácil publicar um livro, mas quando comecei a gente sonhava em imprimir um cartão postal para ter uma imagem sua. Quando entrei no jornalismo tinha um sonho romântico de ser poeta, mas me deparei com uma área muito pragmática e então fui para a fotografia tentando encontrar um espaço de expressão que o jornalismo convencional não me oferecia. De todo modo, quando caí como fotógrafo numa redação percebi que ali era também linha de produção e, por isso, comecei a desenvolver uma produção paralela, autoral e fui convidado a participar de exposições, fazer workshops e a me tornar cada vez mais engajado em projetos culturais. Durante minha formação fui investigando mais sobre a fotografia e ampliei meus conhecimentos para além da prática diária que já realizava, em um maior aprofundamento teórico e sobre a história da fotografia, foi assim que acabei no mestrado, doutorado e pós doutorado, fiquei um tempo na França estudando e fui aos poucos saindo do mercado do fotojornalismo, até o ponto que parei de fotografar profissionalmente e isso aconteceu sem traumas, mas eu nunca abandonei o mundo da fotografia, mas aprofundei ele de outra forma. Comecei a escrever mais sobre fotografia e assim, passei de fotógrafo à critico.

IIF: Como é esse papel de crítico de fotografia?

RE: Ele não diz respeito somente a um texto sobre um trabalho. Existe uma coisa que chamamos de Crítica de Acompanhamento, Crítica de Ateliê, por isso, como crítico eu trabalho muito na formação dos artistas, ou no apoio a projetos, sem fazer julgamentos de certo ou errado, mas criando uma interlocução com o artista para que o trabalho dele se desenvolva com consistência.

IIF: E a arte, como ela entra aí?

RE: Então, teve um tempo que eu cansei da fotografia, e pensei, eu agora quero estudar arte contemporânea e foi muito interessante, porque sair de uma área específica da fotografia e ir para uma área mais abrangente que é arte contemporânea me fez reencontrar, dentro da arte, a própria fotografia de uma outra maneira e é isso que vou ajudar a entender durante a minha palestra da 2ª Semana de Fotografia e Arte.

IIF: Qual seu interesse na fotografia e o que você vai falar em sua palestra?

RE: Eu tenho um grande interesse na fotografia experimental, que foi um dos meus aprofundamentos de pesquisa enquanto estive na França, trata-se uma fotografia que mistura outros tipos de linguagens, uma fotografia que tem movimento, uma fotografia que adquire uma nova forma narrativa, uma fotografia que saí da parede, que vira instalação, que dialoga com a performance, e essa fotografia tem um carácter bastante conceitual. Alguns desses trabalhos que me interesso, e que vou trazer de referência durante minha palestra, dizem respeito não a alguém que domina plenamente a técnica fotográfica, que tem o olhar muito aguçado e saí pelo mundo buscando boas imagens, mas que senta, escreve, conceitua, define um procedimento e planeja, por exemplo, o tema que escolher. Dessa forma, o resultado disso não é, necessariamente um conjunto de imagens exuberantes, mas é um trabalho que tem um poder crítico de reflexão muito grande. Então é um viés muito diferente daquela que a gente aprendeu com os grandes mestres da fotografia, pois não necessariamente esses trabalhos, que iremos comentar mais detalhadamente na palestra, são feitos de imagens que parecem impossíveis de serem realizadas, mas pode ser uma imagem que qualquer um poderia fazer, o que sustenta esse trabalhos, portanto, é uma amarração conceitual, um processo de reflexão e por isso, esse diálogo com a crítica é importante. Porque boa parte do desenvolvimento do trabalho desses artistas que trabalham com fotografia é escrita, leitura, planejamento e a produção das imagens é só um momento da construção desse projeto.

IIF: Você poderia dar alguns exemplos dos artistas que você vai comentar durante a palestra?

RE: Pensando num exemplo internacional, pretendo falar da Sophie Calle, uma artista francesa, que tem um trabalho bastante performático e, aqui no Brasil, de uma artista bastante jovem chamada Flávia Junqueira que é uma artista que trabalha com a fotografia, mas ela não clica, digamos assim ela “terceiriza o clique”; ela produz uma grande cenografia e tem alguém que ela contrata que bate a foto. Trarei esse exemplo para falarmos sobre a autoria, nesse caso, a artista seria autora do que? Embora essa criação seja compartilhada em níveis diferentes, eu não tenho dúvida que esse trabalho é dela,  mas isso levanta uma boa discussão que iremos comentar na palestra, já que isso não é uma prática muito comum na fotografia, já que temos vícios históricos que nos levam a considerá-la como produto de um olhar solitário, numa visão muito romântica, o cara que sai com sua câmera, buscando boas imagens, uma ideia muito alimentada pela indústria, mas que não é necessariamente verdadeiro. A gente não considera a equipe de produção e isso não é pecado nenhum.

IIF: Você irá comentar, então sobre essa relação dos fotógrafos com outros artistas?

RE: Sim, principalmente como se desestabiliza uma certa noção de autoria. Uma figura importante para a gente, tanto no Brasil quanto internacionalmente, a Rosangela Renó, que foi fotógrafa há muito tempo atrás, mas hoje ela é uma artista que se apropria de fotografia. Ela é uma artista muito presente no universo da fotografia, mas ela não sente mais essa necessidade de fotografar, porque a questão fundamental para ela, diz respeito aos arquivos, porque hoje, digamos assim, produzir imagem é muito fácil, todo mundo tem acesso e faz circular imagens, mas a questão que impera é o que fazer com esse arsenal de imagens? Então, o que bate para ela é que esses arquivos que prometeram guardar uma memória, a que poder eles estavam ligados? Que tipo de narrativa sobre o mundo elas instituem? Então ela é uma pesquisadora que se interroga muito sobre as imagens, mas que não sente necessidade de produzir as suas próprias. Ela retrabalha essas imagens, ela cria formas de  apresentar esses trabalhos, mas ela não está preocupada em clicar. Isso parece uma coisa difícil de dizer para quem investe pesado na formação como fotógrafo, mas a fotografia está muito presente na arte contemporânea, também porque ela é uma imagem fácil de fazer e, muitas vezes, o artista não está preocupado em dizer que é alguém diferente dos mortais, que conquistou um saber único, ele se se interessa pela fotografia justamente porque ela está na cada de todo mundo, todo mundo tem uma câmera, a proposta pode ser exatamente isso, essa relação com as pessoas comuns.

IIF: Resumindo, portanto, como seria isso dessa fotografia experimental?
RE: A fotografia experimental não estaria tão preocupada na realização de imagens exuberantes, assim como também não está preocupada em revelar um dom especial que esse sujeito artista adquiriu, seja lá pela via que for. Essa imagem, esse trabalho que envolve fotografia, ele envolve uma produção um pouco mais complexa, que envolve outras pessoas numa produção coletiva, às vezes, autoria é mais autoria de uma ideia do que de uma imagem, a imagem é só uma etapa do processo, ou a apropriação de uma imagem que já existe, sem essa preocupação em se distinguir das imagens que já são produzidas habitualmente, pelo contrário, são imagens que estão tentando nos fazer pensar sobre essa cultura visual estabelecida. O que são as imagens que você posta em suas redes sociais? O que são essas imagens que os jornais publicam todos os dias? O artista, portanto, se envolve mais numa proposta de crítica do que de execução de uma imagem original. Portanto, dentro desse universo o artista não está tão preocupado em dizer “sou fotógrafo”, ele usa a fotografia, mas se ele precisar usar pigmento, argila, uma câmera de vídeo, ou implicar o seu próprio corpo numa apresentação numa performance, ele será capaz de transitar por esses espaços com bastante desenvoltura, mas a presença da fotografia é muito forte e é isso que iremos comentar. A palestra não será apenas para fotógrafos, mas para quem quer refletir sobre o uso da imagem na arte contemporânea.

IIF: Então essa palestra interessaria a quem?

RE: Tanto artistas de qualquer linguagem que se interessam em saber como que se opera a construção de uma imagem fotográfica. Um escritor, por exemplo, que está fazendo uma pesquisa e que precisa entender mais sobre os moldes de produção de uma imagem que pode ser da fotografia, ou do cinema, assim como um escritor pode precisar entender como funciona um laboratório que faz pesquisa genética, ela quer entender o que é essa cultura visual, porque a narrativa que ela produz demanda isso. Por isso, artistas de qualquer linguagem podem ter necessidade de compreender um pouco mais a linguagem, a técnica e as formas de produção da fotografia e, de outro lado, quem é fotógrafo e tá bem resolvido na técnica, mas que sabe que não é só isso que é feito um projeto artístico. Portanto, poderá interessar esse fotógrafo que já tem domínio da técnica, mas quer desenvolver mais sua ideia de constituição de projeto, que depende de diálogo, de escrita, de leituras e não só o domínio de um equipamento.

 

A 2ª Semana de Fotografia e Arte é um projeto desenvolvido pelo Instituto Internacional de Fotografia que reunirá, fotógrafos e teóricos da imagem para discutir o mercado de arte, fotomontagem, poéticas visuais, processo criativo, fotojornalismo e outros assuntos relacionados à fotografia e arte contemporânea.

Ronaldo Entler ministrará a palestra Fotografia e Arte Contemporânea, no dia 24 de Janeiro e irá abordar desde o  processo de ampliação, o impacto das novas tecnologias no fazer fotográfico, a fotografia participando do processo de produção de artistas que não são necessariamente fotógrafos (ainda que essa imagem fotografia ela possa sim, constituir uma obra, e estar exposta em uma galeria em um museu, dentro de uma coleção de arte), o caráter conceitual da fotografia, em que a imagem sozinha não importa tanto, ela parte do processo de construção de debate e, esse debate, é considerado parte da obra e muitos outros assuntos sobre Arte Contemporânea.

 

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