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Alex Villegas

Uma questão de foco

by taigacazarine on January 31, 2012 · 0 comments

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Texto: Alex Villegas

Mal entendidos fazem parte da evolução fotográfica de qualquer um, mas há coisas que realmente fundem a cabeça não só de gente que está começando, mas até dos fotógrafos mais experientes. Uma delas, definitivamente é a nitidez das nossas imagens. Que atire a primeira pedra aquele que nunca comprou equipamento – quase sempre lentes caríssimas – e ficou frustrado. À medida que vamos trabalhando e guardando nosso suado dinheirinho para investir nas melhores lentes e melhores câmeras possíveis – tudo para tentar ter aquela nitidez que nos impressiona – vamos também nos decepcionando. Normalmente não fica tão bom quanto esperamos. Mas por quê?

Felizmente, muitas de nossas decepções são fáceis de remediar, visto que estamos constantemente subutilizando nosso equipamento. Outras são expectativas furadas mesmo, baseadas numa visão irreal da coisa – nada que os fabricantes não fiquem contentes em alimentar, visto que dá uma bela turbinada no consumo.

Escolhi cinco questões para esclarecer, trazendo soluções quando elas estão disponíveis. Então vamos a elas:

 1 – Minha câmera tem 18 Megapixels. Ela deveria ser mais nítida!
Infelizmente não. A tecnologia de desenvolvimento de sensores está muito à frente da ótica – o que quer dizer que não estamos utilizando todo o potencial desses sensores, porque as lentes não conseguem resolver com precisão detalhes tão pequenos quanto os necessários para atingir tamanha resolução.
Mesmo as lentes de projeto mais novo ainda estão batalhando em busca da nitidez necessária para preservar esses mínimos detalhes – e esse problema afeta mais as câmeras de sensor pequeno (APS-C) do que as câmeras com sensor de 35mm (vulgarmente chamadas de full frame). Quanto maior o sensor, mais alivia para a parte ótica, principalmente quando a resolução é mais baixa.

 2 – Acabei de comprar uma objetiva caríssima e ela não é tudo isso. Peguei um exemplar ruim ou as pessoas supervalorizam essa objetiva?
Pode ser qualquer uma das duas coisas, mas é muito mais provável que seja uma terceira: tanto lentes como câmeras para DSLRs são fabricadas em massa a baixo custo (se não acredita que sua lente é barata, pesquise quanto custa uma lente para câmera de cinema, ou uma Rodenstock HR para grande formato) e são sujeitas a pequenas variações na montagem. Por melhor que seja o projeto ótico, a parte eletrônica e os motores podem introduzir essas diferenças menores, o que cria uma lente que é ligeiramente míope ou hipermetrope. Aprendi bastante sobre isso em um artigo do Roger Cicala, que tem um acervo imenso de lentes para aluguel e mantém o site lensrentals.com.
Segundo ele, câmeras costumam vir com pequenos desalinhamentos que fazem com que elas também se tornem míopes ou hipermetropes – basta uma variação de mícrons na montagem da baioneta para que a distância entre a lente e o sensor se torne fora do padrão.
Os padrões de qualidade são bem rígidos, mas imagine uma câmera que tem um pequeno desalinhamento e foca errado qualquer coisa como -2 unidades. Com uma lente perfeita, mal percebemos o problema; com uma lente que foca errado +2 unidades, a diferença zera, o conjunto fica maravilhoso, e viramos fãs dessa lente para todo o sempre. Com uma lente que foca errado -2 unidades, o desvio do conjunto fica em -4 e aí a coisa desanda – a lente não nos parece tão nítida quanto dizem.
Pensando nisso é que algumas câmeras incorporaram o recurso de microajuste de foco – via menu, podemos ajustar milimetricamente o foco para que o conjunto funcione melhor. A câmera memoriza o ajuste para cada lente, e compensa o foco automaticamente.
Pessoalmente, mudei de corpo de câmera mais por conta da possibilidade de microajuste do que propriamente por resolução ou outros recursos – ganhei nitidez sem precisar investir em novas lentes. Julgue a qualidade da lente apenas após essa útil regulagem, que se faz em alguns minutos.

3 – Troquei de câmera e o foco ficou mais difícil de acertar! Como isso?
Até recentemente, a tecnologia de AF lidava com pontos simples, que podiam ser ativados um a um ou no esquema tudo-ao-mesmo-tempo-agora – este raramente era usado porque privilegiava o que fosse mais fácil de focar. Com um único ponto ativo, é fácil focar e reenquadrar para fazer a foto.
Mas na nova geração de câmeras, a focagem está mais sofisticada – é possível selecionar “clusters”, ou grupos de pontos de focagem e estabelecer seu comportamento. Então, caso queira focar da maneira antiga, é necessário configurar corretamente a câmera – porque ela provavelmente está ajustada para trabalhar da maneira mais automatizada, normalmente focando no ponto mais próximo que tiver algum contraste.
Outra possibilidade é o caso de você ter migrado do APS-C para o 35mm. Saindo de uma Canon 7D para uma Canon 5DMkII, você sentirá uma queda na profundidade de campo, ou seja, terá mais dificuldade para manter tudo em foco. Isso se deve ao fato de que o enquadramento na 5D é muito maior, o que obriga a usar uma lente mais longa (como por exemplo uma 85mm no lugar de uma 50mm) ou se aproximar mais para obter um enquadramento similar. E os dois procedimentos reduzem a profundidade de campo disponível.

4 – Mesmo com minha câmera configuradinha e as melhores lentes, minhas imagens não ficam tão boas quanto as que vejo nas revistas.
Calma lá! O que você está vendo são imagens finalizadas e pósproduzidas, frequentemente com três aplicações distintas de nitidez:
a – Nitidez de entrada, feita de maneira geral na imagem, frequentemente usando o software de conversão de RAW.
b – Nitidez seletiva, feita de maneira localizada, usando alguns conversores de RAW que dispõem do recurso, usando o Photoshop ou plugins especializados como o NIK Sharpener Pro, que podem rodar a partir do Photoshop, Aperture, Lightroom ou mesmo sozinhos.
c – Nitidez de saída, feita de maneira geral na imagem, mas baseada no sistema de impressão e no tamanho final da fotografia. Pode ser feita no Lightroom, Photoshop ou usando plugins.

Uma vez com essas três passagens executadas, a imagem se torna nitidamente superior em termos de definição.

5 – Que outras providências posso tomar para melhorar a nitidez das minhas fotos?
Alguns pequenos procedimentos podem ser usados para ganhar definição:
a – Pessoalmente, gosto de desabilitar a focagem do disparador, usando apenas o botão AF-ON, atrás da câmera, para focar. Explico: com o botão do disparador fazendo ambas as tarefas (focagem e disparo), o foco é recalculado a cada vez que disparamos processo muitas vezes desnecessário. Nas câmeras manuais, foco fica na objetiva e o disparador só dispara, o que permite que alteremos o foco apenas quando necessário.  Focando apenas com o AF-ON, recalculo o foco apenas quando necessário o que me permite clicar à vontade, exatamente como numa câmera manual, mas com a comodidade do autofoco.
b – Fique de olho na relação entre velocidade e distância focal de sua lente: é comum fotografarmos com velocidades baixas inadvertidamente, causando perda de definição por conta do movimento da câmera – mesmo que sejamos mestres de Tai Chi Chuan, o próprio movimento do espelho causa vibração. Um cálculo simples pode ajudar bastante: VS=DF x FC
Onde VS é a velocidade mínima segura, DF é a distância focal e FC é o fator de corte. Com uma Nikon D700, que tem sensor de 35mm, o fator de corte é 1. Então a velocidade mínima para usar uma 50mm com conforto seria 1/50. Já na Canon 7D, que tem sensor APS-C, com fator de corte 1.6, a velocidade mínima para usar a mesma lente seria 1/80, aproximadamente. Com as modernas lentes estabilizadas (IS ou VR), essa velocidade mínima cai um pouco, mas ainda assim não é bom abusar.
c – Se estiver fotografando produto ou tiver um tripé disponível, use a trava de espelho para garantir definição em baixas velocidades. Ao configurar a trava de espelho em uma digital, da primeira vez em que pressionar o disparador o espelho irá subir, mas será necessário pressionar uma segunda vez para fazer a foto – livrando a câmera da tremedeira da subida do espelho. Com um disparador remoto a coisa funciona ainda melhor.

Como podem ver, melhorar e muito a qualidade ótica das suas imagens não custa muito mais do que algum tempo e um pouco de técnica fotográfica. Se há algum segredo por trás das imagens que vemos por aí, é esse – técnica adequada para fazer seu equipamento render o máximo, não importa qual seja ele.

 

Alex VillegasAlex Villegas 
Alex Villegas é fotógrafo e retocador, com mais de 10 anos de experiência em tratamento de imagens, produção gráfica e design. Atualmente, dedica-se à fotografia, pós-produção e educação fotográfica, ministrando cursos e workshops sobre o assunto desde 2005, por todo o Brasil. 
É autor do livro O Controle da Cor – Gerenciamento de Cores para Fotógrafos, e colunista das revistas Photos e Imagens e Photo Magazine, além de pertencer ao conselho editorial da revista Photoshop Creative Brasil.

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